[SulInformação] Lota Cool Market mediu tudo para pôr a sustentabilidade à prova
1 Setembro, 2026

Durante cinco noites, junto à antiga Lota de Portimão, não se contaram apenas visitantes, concertos, copos ou petiscos. Contaram-se litros de água, quilowatts de eletricidade, quilos de vidro, papel, plástico, restos de comida e lixo indiferenciado. Mediram-se até os quilómetros percorridos pelos músicos e perguntou-se aos visitantes como tinham chegado.
No final, o Lota Cool Market ficou com uma espécie de radiografia ambiental: 36,3 toneladas de CO₂ equivalente, 1380 quilos de resíduos, 5949 litros de água, 2356 kWh de eletricidade e um Índice de Circularidade de 61 pontos em 100.
É a primeira vez que a Associação Teia d’Impulsos faz uma avaliação desta dimensão e, tanto quanto os promotores conseguiram apurar, será também uma experiência inédita num evento cultural de entrada livre no Algarve.
O Lota Cool Market, que este ano decorreu entre 15 e 19 de Julho na Zona Ribeirinha de Portimão, junto à antiga Lota e à Ponte Velha, já procurava incorporar preocupações ambientais.
A diferença é que, desta vez, decidiu descobrir se aquilo que dizia e fazia em matéria de sustentabilidade resistia à prova dos números. A edição de 2026 manteve a fórmula de mercado ao ar livre, juntando artesanato, gastronomia e música, com entrada gratuita, como o Sul Informação noticiou. A iniciativa é uma das apostas culturais e recreativas da Teia d’Impulsos para dinamizar Portimão e valorizar a economia local.
«O grande objetivo era passarmos a ter dados que nos digam se há realmente sustentabilidade no evento ou não, onde é que o evento é mais sustentável, onde é que é menos sustentável, o que é que podemos fazer, em que áreas é que podemos atuar para aumentar a sustentabilidade», explica Luís Brito, presidente da direção da Teia d’Impulsos, em entrevista ao Sul Informação.
A ideia nasceu de uma colaboração antiga com Ivo Carvalho, fundador da empresa algarvia Bluegarve e consultor nas áreas da sustentabilidade e economia circular, que chegou a trabalhar com a associação. Foi através da plataforma MIDAL GES – Gestão de Eventos Sustentáveis, desenvolvida pela Bluegarve, que o mercado foi analisado. A ferramenta permite fazer o diagnóstico inicial de um evento, acompanhar e monitorizar consumos durante a sua realização e, no final, transformar toda essa informação num relatório.
«Isto é tudo muito bonito, mas eu olho à volta e há aí montes de malta a vender eventos como sustentáveis, mas ninguém tem nada deste trabalho feito, não fazem qualquer avaliação», diz Luís Brito.
Para o dirigente associativo, quem apresenta publicamente um evento como sustentável deve conseguir demonstrá-lo: «Se queremos vender eventos ou se queremos promover eventos enquanto sustentáveis, temos de ter alguma base de trabalho para o podermos fazer».

Afinal, quão sustentável foi o Lota?
O resultado é um documento de 12 páginas que se assume como o primeiro Relatório de Pegada Ecológica da Teia d’Impulsos e como uma «iniciativa pioneira no Algarve».
Durante as cinco noites, o evento foi medido «fração a fração, litro a litro», através da plataforma MIDAL GES.
E os números permitem perceber a dimensão do que aconteceu naquele espaço. O relatório estima 19 166 visitas ao longo das cinco noites, uma média de 3833 por noite, tendo sido registado um pico de 1505 pessoas em simultâneo.
A afluência não resulta de uma simples estimativa visual: o pico foi obtido através de contagem direta, recorrendo a análise fotográfica e imagens de drone. Para chegar ao total de visitas, foram somados os picos ajustados de cada noite e aplicado um fator de rotatividade de 3,5, usado como referência em festivais de entrada livre.
Essa preocupação em medir é, precisamente, uma das diferenças que Luís Brito gostaria de ver estendida a outros eventos. «Este ano já percebi que a arma de arremesso dos eventos no Algarve é o número de participantes», ironiza, lembrando que os balanços públicos tendem a concentrar-se na quantidade de pessoas presentes.
«Eu acho que é muito pouco um evento como o Festival da Sardinha ou o Festival do Marisco vender-se publicamente a dizer que tinham cento e não sei quantos mil visitantes. Ou seja, não vão além daquilo que é o número de pessoas participantes. Não se sabe o impacto económico, o impacto ambiental, o impacto social, ninguém sabe avaliar nada disso», afirma o presidente da Teia d’Impulsos.

1380 quilos de lixo — mas mais de metade escapou ao aterro
Uma das áreas onde a fotografia ficou particularmente nítida foi a dos resíduos. Nas cinco noites, foram produzidos 1380 quilos, separados e pesados em cinco frações. Quase metade, 666 quilos, foi lixo indiferenciado. Seguiram-se 348 quilos de vidro, 161 de resíduos orgânicos, 111 de plástico e 94 de papel e cartão.
O resultado mais relevante está no destino: 714 quilos, ou 52% do total, foram desviados de aterro.
Por cada visita foram produzidos cerca de 70 gramas de resíduos, um valor que o relatório compara com uma referência publicada de 300 a 500 gramas. Ou seja, mesmo havendo margem para melhorar a separação, a quantidade produzida por visitante ficou bastante abaixo desse intervalo de referência.
Há, contudo, trabalho pela frente. O objetivo de referência é chegar aos 80% de resíduos desviados do aterro, quando nesta edição se atingiram 52%.
A organização acredita que parte do plástico e dos resíduos orgânicos recicláveis terá acabado nos indiferenciados.
Para 2027, a receita passa por mais ecopontos sinalizados, voluntários a ajudar na separação e maior triagem dos resíduos orgânicos da restauração para compostagem.

Água e eletricidade também entraram nas contas
Nem a água escapou à medição. Foram consumidos 5949 litros nas cinco noites, cerca de seis metros cúbicos e uma média de 1190 litros por noite. O consumo oscilou entre 1001 litros, no dia 16, e 1320, no dia 17 de Julho.
Feitas as contas, são 0,69 litros por consumidor, e a variação relativamente pequena entre noites levou os autores a concluir que existe um consumo de base muito estável.
Na eletricidade, foram consumidos 2356 kWh, medidos diretamente nos três quadros elétricos do evento e complementados por 15 leituras nos sistemas de som, música e iluminação. A conta inclui ainda a iluminação do recinto e dos stands e a atividade dos operadores de comidas e bebidas.
Isso corresponde a 0,12 kWh por visita, muito abaixo da meta interna de 2 kWh estabelecida para avaliação. Em termos climáticos, toda a eletricidade consumida representou cerca de 0,64 toneladas de CO₂ equivalente.
Mas é aqui que surge uma das conclusões mais interessantes do estudo: a eletricidade não é o grande problema da pegada carbónica do Lota Cool Market. São as viagens até lá.
O carro é o «elefante» no recinto
A pegada total foi calculada em 36,3 toneladas de CO₂ equivalente, ou 1,9 quilos por visita. A eletricidade representou apenas cerca de 1,8% deste total. A maior fatia resulta das deslocações do público, calculadas por modelação a partir do meio de transporte indicado pelos visitantes, e do catering.
O inquérito ajuda a perceber porquê. Entre 62 visitantes entrevistados, 63% disseram ter chegado de automóvel. Apenas 15% vieram a pé, 10% de autocarro e 3% de comboio. No total, 27% chegaram sem carro. E isto apesar de o público ser predominantemente de proximidade: 45% dos inquiridos eram de Portimão e outros 11% de outros pontos do Algarve.
Há, portanto, uma conclusão prática para a próxima edição: se o evento quiser reduzir significativamente a pegada carbónica, terá de convencer mais pessoas a deixarem o automóvel em casa. Entre as recomendações estão uma campanha de mobilidade suave e a utilização de eletricidade 100% renovável certificada.
Ivo Carvalho explica ao Sul Informação que é precisamente esta a utilidade da ferramenta: «Temos de ter a capacidade de interpretar esses resultados e perceber qual é que vai ser o próximo passo. Ou seja, onde é que nós realmente ainda estamos a ter uma maior pegada ecológica negativa, onde estamos a fazer mais mal ao ambiente, e, a partir daí, tentar melhorar alguns aspetos».
E rejeita avaliações baseadas apenas em impressões. «Este é um projeto piloto, de aprendizagem, mas é um projeto sério, em termos de dados e informações. Utilizamos os meios e os métodos reconhecidos, não há “achismos”», salienta o fundador da Bluegarve.

Artesãos já levam a sustentabilidade para a banca
A análise foi muito além das infraestruturas. Dos 49 operadores presentes, 36 responderam aos questionários: 19 artesãos e 17 operadores de comidas e bebidas, uma taxa de resposta de 73%.
Entre os artesãos, 17 dos 19 já aplicavam pelo menos uma prática sustentável e 16 faziam separação de resíduos no próprio espaço. Quinze disseram usar materiais reciclados ou reaproveitados e oito transformavam sobras em novos produtos. E o reaproveitamento tinha exemplos muito concretos: gangas usadas, desperdícios de tecidos e couro provenientes de fábricas, latas de refrigerantes, discos, prata reciclada, madeira recuperada e até rolos fotográficos. Apenas um dos artesãos declarou utilizar embalagens de plástico.
Na restauração e bebidas, todos os 16 operadores que responderam à pergunta sobre resíduos disseram fazer separação, 13 deles integralmente. Quinze afirmaram ter reduzido o plástico descartável e 14 compravam a fornecedores locais.
Mas também aqui apareceram fragilidades: só dois utilizavam loiça reutilizável lavável e todos os 17 operadores se deslocavam em veículos a combustão, 13 a gasóleo e quatro a gasolina. Não havia um único elétrico.

Contratar artistas locais também reduz carbono
Até a programação musical entrou na equação. As 16 atuações envolveram 90 pessoas e implicaram 1008 quilómetros de deslocações, uma média de 63 quilómetros por atuação. Mas sete percorreram cinco quilómetros ou menos, por serem de Portimão, e apenas uma atuação veio de fora do Algarve, de Almodôvar, portanto bem perto, ainda assim.
Para o relatório, estes dados demonstram que a opção da Teia d’Impulsos e do projeto Choque Frontal por músicos locais e regionais não é apenas uma decisão cultural: também reduz emissões.
Ivo Carvalho explica que essa foi uma dimensão deliberadamente estudada: «O que nós fizemos com os artistas foi precisamente medir a sua pegada carbónica, ou seja, através da sua distância, perceber qual é o compromisso da Teia quando contrata artistas». E os resultados, acrescenta ao Sul Informação, confirmaram «uma preocupação da Teia d’Impulsos em contratar na região, e mais concretamente em Portimão».

61 em 100: sustentável, mas com muito para fazer
Depois de transformar todas estas medições em indicadores, a plataforma atribuiu ao Lota Cool Market um Índice de Circularidade de 61 pontos em 100, classificando-o como «Em Progresso». Não é um selo verde nem uma certificação. É uma linha de partida que permitirá comparar as próximas edições.
O evento conseguiu 100% no indicador relativo ao local, 86% na água e 82% na comunicação. No extremo oposto estão os fornecedores, com 14%, a energia, com 25%, e a alimentação, com 30%. A conclusão dos autores é clara: o mercado está mais avançado nas áreas que controla e planeia diretamente e tem mais dificuldade naquelas que dependem de terceiros.
Também não se tentou fazer caber o Lota Cool Market à força nos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas. O relatório identifica contributos mensuráveis para sete ODS, com particular incidência nas Cidades e Comunidades Sustentáveis e na Produção e Consumo Sustentáveis.
Entre os fatores considerados estão a reutilização da antiga Lota, o peso do público regional, a economia criativa de proximidade, a separação de resíduos, os copos reutilizáveis e o combate ao desperdício alimentar.
Neste último ponto, aliás, o resultado surpreende: 85% dos visitantes entrevistados tinham terminado completamente a refeição, conclusão obtida por observação direta no momento do inquérito. Já o copo reutilizável teve uma adesão de apenas 26%, enquanto 10% dos entrevistados nem sequer sabiam que existia. Para os autores, neste caso, o problema é sobretudo de comunicação.

Uma ferramenta algarvia para medir eventos, no Algarve e não só
Luís Brito vê nesta experiência uma oportunidade que ultrapassa o próprio Lota Cool Market. A ferramenta foi desenvolvida no Algarve, por uma empresa algarvia, e pode, defende, ajudar a região a acrescentar conhecimento à organização de eventos.
«É muito importante que este tipo de ferramentas que são desenvolvidas na região sejam promovidas e utilizadas na região, numa primeira fase», afirma ao Sul Informação. Isso, acredita, «pode-nos posicionar enquanto região, ao nível dos eventos, ao nível do turismo, ao nível de uma série de áreas» relativamente a outros territórios.
Ivo Carvalho vai agora aplicar a metodologia noutro desafio da Teia d’Impulsos: o Campeonato do Mundo de Vela Adaptada, que a associação vai promover em Outubro, em Portimão. Luís Brito estima que o evento traga 600 a 700 pessoas ao Algarve e diz que já há 41 países garantidos. «Não é um evento de massas, mas é um evento que se posiciona a nível mundial», salienta.
Para Ivo Carvalho, este tipo de prestação de contas deveria deixar de ser exceção. «Acho que isto quase que já deveria ser obrigatório», afirma, defendendo que as entidades organizadoras deveriam disponibilizar «um conjunto de dados e informações» sobre os seus eventos. A plataforma, explica, reúne e trata informação que, de outra forma, «nunca seria tratada, nem sequer percebida ou discutida».
O relatório, porém, tem o cuidado de não proclamar aquilo que os dados não permitem. Não é uma certificação, nem uma declaração de conformidade, e não existe uma meta formal de certificação ISO 20121 para o Lota Cool Market.
Distingue ainda aquilo que foi efetivamente medido no terreno — eletricidade, água, resíduos e afluência — daquilo que teve de ser estimado através de modelos, como as emissões associadas às deslocações do público e ao catering.
Talvez esteja precisamente aí a parte mais inovadora do projeto: em vez de proclamar que o Lota Cool Market é «sustentável», a Teia d’Impulsos decidiu medir quanto é, descobrir onde não é e deixar números com os quais terá de se confrontar daqui a um ano.
A meta para 2027 não é, por isso, chegar à perfeição. É conseguir provar que houve evolução. Como resume Luís Brito no relatório, «este relatório é o primeiro passo de um caminho de melhoria contínua, e um convite às entidades regionais para o percorrerem em conjunto».
Nota: Todas as fotos são do Lota Cool Market, tendo sido publicadas pela Teia d’Impulsos
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